...

A centralidade do trabalho para a construção da saúde

           Entrevista com Christophe Dejours, por Juliana de Oliveira Barros e Selma Lancman

Considerou-se   relevante   que   o   artigo   de   abertura    desta    edição    da    Revista    de    Terapia   Ocupacional   da   USP   pudesse   trazer contribuições para a discussão sobre a importância do   trabalho   na   construção   da   saúde   dos   sujeitos   e,   consequentemente  para  as  práticas  desenvolvidas  pelos  Terapeutas Ocupacionais na contemporaneidade.Diante  disso,  em  dezembro  de  2014(1),  realizou-se  uma  entrevista  com  Christophe  Dejours  –    Psiquiatra,  Médico do Trabalho, Ergonomista, Psicanalista, Professor Titular  da  Cátedra  “Psicanálise,  Saúde  e  Trabalho”  do  Conservatoire  National  des  Arts  et  Métiers  (CMAN)  –  Paris,  França  e  membro  do  laboratório  “Psicologia  Clínica,   Psicopatologia   e   Psicanálise”   da   Université   Paris  Descartes  (Paris  V)  –  Paris,  França.  Atualmente  é  considerado uma das principais referências internacionais no campo da Saúde Mental e Trabalho.Antes de iniciarmos a entrevista propriamente dita, contextualizamos  o  Prof.  Dejours  com  relação  à  origem  da  Terapia  Ocupacional,  suas  grandes  áreas  de  atuação  e  as  questões  que  têm  nos  mobilizado  mais  recentemente  com  relação  às  práticas  desenvolvidas  na  interface  com  o campo “Saúde e Trabalho”. Realizou-se quatro grandes questões norteadoras ao pesquisador que, livremente, pôde discorrer sobre elas.Para  elaboração  das  questões  iniciais,  partimos  de  obras do próprio autor. Em muitas delas, por exemplo, o Prof. Dejours apresenta definições do termo trabalho tendo como base pressupostos da Psicopatologia e da Psicodinâmica do Trabalho, disciplinas em desenvolvimento desde as décadas de  1950  e  1980  respectivamente,  das  quais  ele  constitui-se como um dos grandes expoentes. Mais especificamente na  obra  intitulada  “Trabalho  Vivo  –  Tomo  II:  Trabalho  e  Emancipação(2)”, o pesquisador afirma que “O trabalho, no que ele tem de essencial, não pertence ao mundo visível”. Pedimos  então,  que  o  autor  pudesse  esclarecer  ou  melhor,  explicar, de forma mais detalhada, qual era sua ideia central em torno desta definição.Ainda nesta obra, o  Prof.  Dejours  afirma que o trabalho seria o principal contexto da vida no qual podemos exercitar  a  democracia.  Defende,  igualmente,  a  tese  de  que  o  trabalho  impulsiona  processos  de  subjetivação,  a  realização de si e a construção da saúde. Solicitamos então, que ele pudesse nos explicar quais são, na perspectiva dele, os papeis que o trabalho desempenha na vida das pessoas, bem como sua importância.Em  seguida,  aproximando  a  discussão  do  mundo  do  trabalho  das  problemáticas  em  destaque  no  contexto  brasileiro   (tomando   como   base   dados   dos   anuários   estatísticos   da   Previdência,   por   exemplo),   pontuamos   que   desde   a   década   de   1990   observamos,   além   do   elevado número de afastamentos por acidentes e doenças osteomusculares,  aumento  significativo  do  número  de pessoas   que   adoece   mentalmente   em   decorrência   do   trabalho. Soma-se a isso o uso progressivo de substâncias psicoativas    nos    ambientes    laborais.    Tratam-se    não    apenas  de  drogas  ilícitas,  como  o  álcool,  mas  também  dos  medicamentos  psicotrópicos,  como  ansiolíticos,  por  exemplo.  Questionamos  o  pesquisador  sobre  quais  eram  suas hipóteses explicativas para este fenômeno.Para concluir, o questionamos sobre as possibilidades que os profissionais que atuam especificamente na saúde do  trabalhador  possuem  para  fazer  frente  à  questão  dos  adoecimentos mentais relacionados ao trabalho: estratégias de enfrentamento, possibilidades de retorno e permanência no trabalho desta população e, por fim, a importância/necessidade deste processo mesmo quando o contexto de trabalho não se mostra favorável.A seguir apresentamos texto síntese, produto desta entrevista com o Prof. Christophe Dejours.

*****Christophe Dejours

Quando   eu   digo   que   o   trabalho   não   pertence   ao   mundo   visível,   trata-se,   evidentemente,   de   uma   preocupação  em  relação  à  objetivação  dele.  Isso  porque  introduziu-se,   ao   longo   dos   últimos   anos,   métodos   de  avaliação  no  mundo  do  trabalho.  Tratam-se,  mais  precisamente, das avaliações objetivas, quantitativas e por medida que colocam o problema do visível e do invisível. Mensura-se apenas aquilo que se pode ver, ou seja, se não é  visível,  não  é  possível  de  ser  mensurado.  E  o  trabalho,  essencialmente,  não  pertence  ao  mundo  visível  por  que,  fundamentalmente, o trabalho é subjetivo. Como  diz  Marx,  o  trabalho  é  vivo,  individual  e  subjetivo. A subjetividade não pertence ao mundo visível e, em decorrência disso, não é mensurável. Não medimos sofrimento,   prazer,   amor,   raiva,   ódio.   Isso   não   pode   ser   medido.   Podemos   caracterizá-los   qualitativamente   em   certas   condições;   podemos   perceber   que   existe   agressividade,  que  há  transformação  de  amor  em  ódio,  mas a quantidade é uma metáfora.Então,    o    trabalho    é    invisível    pois    ele    é    essencialmente   subjetivo…,   mas   o   que   quer   dizer   o   trabalho  ser  essencialmente  subjetivo?  Isso  é  decorrente  do  fato,  como  bem  mostraram  os  ergonomistas  nestes  últimos  50  anos,  de  que  existe  sempre  um  hiato  entre  o  trabalho prescrito – a tarefa, e o trabalho real – o trabalho efetivo.  O  hiato  é  irredutível  porque  o  trabalho  prescrito  ou  a  organização  prescrita  do  trabalho  repousa  sobre  um  postulado  de  previsibilidade  do  processo  de  trabalho,  fundado  nas  ciências  da  organização  do  trabalho,  nas  ciências  da  engenharia,  que  reinam  sobre  o  mundo  do  trabalho desde Taylor, no fim do século XIX.Este postulado repousa sobre a ideia de que podemos prever o desenvolvimento, as etapas do processo de trabalho. A  experiência  do  trabalho  sob  a  luz  da  ergonomia  e  mais  recentemente  da  análise  clínica  do  trabalho,  mostram  que  esta  previsibilidade  é  colocada  em  cheque  pela  ocorrência  de  incidentes,  de  panes,  de  bugs,  de  anomalias  como  por  exemplo os acidentes do trabalho… é o que chamamos de real do trabalho. A experiência do real do trabalho se manifesta sob  a  forma  de  fracasso  do  trabalhador…  fracasso  de  seu  saber  técnico,  de  sua  habilidade,  de  seus  conhecimentos…  e  se  formos  ainda  mais  longe,  isso  recoloca  em  questão  a  ciência, incluindo as ciências da engenharia, pois o processo de trabalho não acontece como o engenheiro previu.  O problema que é colocado frente ao real do trabalho reside no fato de que o trabalhador seja capaz de inventar a solução. É necessário que ele encontre a solução por ele mesmo. A inteligência que é mobilizada para preencher o hiato  entre  o  trabalho  prescrito  e  o  trabalho  efetivo,  isso  é  o  mistério  do  trabalho.  Trata-se  da  inteligência  que  vai  ser estudada mais especificamente pela clínica do trabalho, pela Psicodinâmica do Trabalho e que não é estudada pela Ergonomia… trata-se de algo realmente específico à clínica e a Psicodinâmica do Trabalho.É  uma  inteligência  que  se  caracteriza  pelo  fato  de  passar  por  uma  série  de  etapas,  mas  um  aspecto  fundamental  é  que  ela  começa  pelo  fracasso:  trabalhar  é  fracassar. Em seguida, é ser capaz de suportar o fracasso, de não se render frente a ele, mas de se confrontar com o real que sempre resiste até o momento em que encontramos a solução. Isso pode durar alguns minutos em alguns casos, algumas  vezes  são  muitos  dias,  outras  vezes  algumas  semanas,  muitos  meses…  eventualmente  existem  mesmo  aquelas situações de trabalho onde são necessários muitos anos para conseguir resolver o problema.Isso  é  verdade  evidentemente  para  o  trabalho  do  pesquisador, mas também é verdade para muitas profissões, como  por  exemplo  a  terapia  ocupacional,  a  psicologia…  é  preciso  muito  tempo  para  encontrar  as  habilidades,  para  inventar soluções que vão permitir superar as dificuldades que  o  doente  mental  opõe  às  habilidades  do  terapeuta,  por  exemplo.  São  necessários  muitos  anos  de  formação  e  outros  de  experiência,  mesmo  após  a  formação  concluída,  para  desenvolver  as  habilidades  que  vão  permitir  superar  certas dificuldades com as crianças, adolescentes e adultos doentes, por exemplo. É  necessário  então,  ter  a  capacidade  de  suportar  a  experiência  de  fracasso.  A  resistência  é  o  problema  fundamental. Ela supõe, na realidade, que a subjetividade esteja engajada no trabalho não somente durante o tempo de trabalho, mas também fora dele. Quando,  por  exemplo,  se  passa  um  dia  inteiro  tentando  resolver  um  problema  e  não  se  consegue:  com  um  doente  em  um  serviço  de  medicina  interna,  em  um  serviço  de  psiquiatria,  de  gerontologia  ou  de  oncologia  infantil etc., e constatamos que os cuidadores não somente pensam  no  trabalho  durante  o  tempo  em  que  estão  nele,  mas  continuam  pensando  no  problema  quando  saem  do  trabalho… e que isso ainda faz parte do trabalho e que pode haver consequências para os familiares e, no final isso pode desencadear insônias… isto faz as pessoas sonharem durante a noite. O que tem nos mostrado a clínica, somada a uma análise mais refinada do ponto de vista teórico em relação  ao  que  acontece  nesta  resistência  no  trabalho,  é  que a subjetividade inteira deve ser habitada pelo trabalho até  que  se  forme  uma  intimidade  com  o  corpo,  uma  familiaridade entre o corpo e o real do trabalho. E  finalmente,  o  lugar  onde  reside  a  inteligência no  trabalho  não  é  como  se  acreditava,  ou  seja,  no  cérebro  unicamente. É preciso vivenciar/provar afetivamente a relação com o real e, para isso é necessário um corpo… a inteligência tem seu lugar no corpo por inteiro, seja na condução de uma central  nuclear,  seja  para  pilotar  um  avião  de  caça,  para  cuidar de um doente. É necessário aprender a sentir o doente e quando somos professores é necessário aprender a sentir o público, o anfiteatro. É complicado esta relação de intimidade do corpo, mas é ele que experimenta o real e é a partir dele que  se  inicia,  que  se  coloca  em  movimento  o  processo  que  vai conduzir a descoberta da astucia e o desenvolvimento de estratégias que vão permitir superar o real.Falando em termos mais refinados, é o corpo que intui a solução, aquela que permite superar o real. E esta intuição, esta  potência  da  intuição  do  corpo  é  conferida  inicialmente  pelo  estabelecimento  da  familiarização  do  corpo  com  o  real.  Esta  familiarização  é  subjetiva  e  em  primeiro  lugar,  fundamentalmente afetiva. E no final a solução chega, ela vem  como  ideia,  quase  como  uma  ideia  incidental…  Freud  diria “Einfall’! Tal ideia, de repente, vai permitir tentar alguma coisa que não se teria sabido fazer até aquele momento. Esta inteligência que reside no corpo está à frente da nossa  capacidade  de  compreendê-la.  Isto  é  complicado…  nós somos capazes de desenvolver habilidades no trabalho que  nós  não  temos  a  capacidade  de  dar  uma  explicação  exata,  seja  verbal  ou  por  escrito…  nós  não  seríamos  capazes  de  explicar  no  que  consiste  esta  habilidade,  por  exemplo: o que é o tato com um doente?  O que é sentir um anfiteatro para um professor, o que isso quer dizer? Mesmo para as pessoas que fazem isto há muito tempo é extremamente  complicado  compreender  a  habilidade  que  elas usam para poder manter este contato com seu público. Elas sabem fazê-lo, mas não sabem explicar como fazem.Esta   inteligência   está   à   frente   da   conceituação,   da  formalização  que  nós  podemos  fazer  dela.    Tudo  o  que  acontece  na  subjetividade,  as  insônias,  as  mudanças  de  humor,  a  irritabilidade,  todos  os  afetos  fazem  parte  do  trabalho, os sonhos fazem parte do trabalho. Os sonhos são um tempo particular no qual o que, inicialmente, se coloca entre o corpo e o real, encaminha-se durante a noite e, através do  trabalho  do  sonho,  inicia-se  a  transformação  da  relação  entre o sujeito e seu corpo. É o que chamamos o trabalho do sonho « l’arbeit »! Este trabalho do sonho é uma condição necessária para que possa surgir a intuição e a solução. Então  o  trabalho  do  sonho  é  o  tempo  do  trabalho  de  si  sobre  si,  que  é  gerado  a  partir  da  relação  entre  o  corpo e o real. E é por isso que ela se configura enquanto sofrimento  pois,  inicialmente,  não  funciona.  Dispara  um  segundo trabalho, desta vez na subjetividade e, da relação entre  o  sujeito  e  a  maneira  como  habita  seu  corpo  nasce  a  solução.  Tudo  isso  pertence  à  subjetividade.  Portanto,  a  genialidade  da  inteligência  no  trabalho  é  inteiramente  subjetiva.  Por  isso  ele,  o  trabalho,  pertence  ao  mundo  invisível.  E  o  essencial  do  trabalho,  da  inteligência  do  trabalho, não pertence ao mundo visível e não será nunca mensurável. A partir desta compreensão, defino o trabalho como aquilo que o sujeito deve acrescentar à organização prescrita para poder fazer frente ao que não é previsto pela organização do trabalho, para fazer face ao real.E  isso  é  o  trabalho,  a  passagem  pela  subjetividade…  este longo circuito pelo qual chegamos finalmente a intuição da  solução  que  é,  na  verdade,  um  desenvolvimento  da  inteligência. Caminho que passa pelo corpo, pela inteligência, insônia, sonhos… pela transformação da relação de si consigo mesmo. É isso que nós chamamos de Trabalho Vivo. Então, de forma geral, o trabalho é aquilo que é necessário acrescentar ao  prescrito  para  que  o  sistema  funcione.  O  Trabalho  Vivo  é  o  que  isso  implica  do  ponto  de  vista  da  inteligência  e  da  mobilização  da  subjetividade.  O  Trabalho  Vivo  é  o  que  é  preciso  acrescentar,  ou  seja,  o  que  se  deve  acrescentar  de  si  para alcançar este resultado: a inteligência e a subjetividade. Finalmente,   o   aspecto   necessário   à   mobilização   desta   inteligência  é  o  que  nomeamos  tecnicamente  de  zelo.  Eis  o  que é o Trabalho Vivo!E  é  este  Trabalho  Vivo  que  nenhuma  organização  do  trabalho  pode  dispensar,  nenhuma  organização  do  trabalho pode prescindir. Se as pessoas executam as ordens da organização do trabalho isto não funcionará por causa dos incidentes, das disfunções… pelas panes e imprevistos impostos pelo real. Se  não  há  ninguém  preparado  para  o  inesperado,  então o trabalho é interrompido. Em alguns casos ele para, em outros, explode, como nas centrais nucleares e empresas petroquímicas, por exemplo. Se não há o Trabalho Vivo, o risco é o dos incidentes e até mesmo os acidentes, e ainda as  grandes  catástrofes  industriais  como  nós  vimos  em  diferentes  setores,  diferentes  situações…  Chernobyl  por  exemplo, a grande catástrofe nuclear, é fundamentalmente resultado de uma desmobilização do Trabalho Vivo.

Então  porque  que  nós  dizemos  que  o  trabalho  contribui na construção e fortalecimento da subjetividade? É  fundamentalmente  em  decorrência  deste  processo  do  Trabalho Vivo que passa pela inteligência.  Na realidade, num  primeiro  momento,  trata-se  desta  relação  afetiva  e  subjetiva  com  o  real,  portanto  esta  familiarização  pelo  engajamento do corpo na relação com o real. E eu especifico agora  que  o  corpo  em  questão  não  é  o  corpo  biológico,  é  o  que  chamamos  de  segundo  corpo.  Se  nós  não  temos  uma  teoria  do  corpo  nós  não  podemos  absolutamente  compreender como isso funciona. Não é o corpo biológico, os   captadores   sensoriais   ou   sensitivos,   não   somente   o  cérebro.  Trata-se  do  corpo  que  experimenta  a  vida:  é  o  corpo  subjetivo  que  nós  opomos  ao  corpo  objetivo.  As  pessoas  que  têm  um  diagnóstico  de  esquizofrenia,  por  exemplo,  elas  têm  um  corpo  objetivo  que  funciona  muito  bem,  você  mede  a  frequência  cardíaca,  a  pressão  arterial,  a  imunologia,  tudo  funciona  bem,  mas  o  corpo  não é habitado pelo esquizofrênico, o corpo subjetivo não funciona bem para algumas pessoas.Portanto, o corpo objetivo, o corpo fisiológico, e o corpo do vivido, o corpo subjetivo, não são os mesmos. O que está no trabalho refere-se ao corpo subjetivo, que não se vê, mas se experimenta de modo afetivo … por meio dele se sofre, mas também em certas condições, se transforma este sofrimento  em  prazer.  Este  primeiro  momento  da  relação  entre o corpo subjetivo e o real do trabalho é retomado num segundo  momento  pelo  trabalho  de  si  sobre  si  que  integra  o trabalho efetivamente realizado. O segundo tempo é uma verdadeira  transformação  de  si  sobre  si  por  que,  para  que  venha  a  solução,  para  que  venha  a  ideia  que  vai  permitir  superar  o  real  é  preciso  passar  por  uma  transformação  da  maneira  de  habitar  o  próprio  corpo.  E,  portanto,  é  um  processo transformador pelo qual, em razão da existência do real, eu sou incitado, eu sou movido a me transformar. Então trabalhar  não  é  somente  produzir  é  também  transformar  a  si mesmo. E ao final do processo nós somos mais hábeis, formamos  uma  nova  habilidade  que  não  existia  antes  do  trabalho.  Ela  é  uma  produção  e  uma  consequência  da  relação de obstinação e de resistência frente ao real. Deste  modo,  a  habilidade  não  existe  antes  do  trabalho,  a  competência  não  existe  antes  do  trabalho.  É  o  confronto com a impotência, com o fracasso no trabalho que vai me obrigar a me transformar até que eu adquira, até que eu  descubra  e  que  se  revelem  em  mim  novas  habilidades  que não existiam antes. Portanto, pela obstinação da relação com o real eu sou, ao final do circuito, mais inteligente e mais hábil em relação ao que eu era até então. Assim  sendo,  o  real  do  trabalho  possibilita  uma  transformação dos sujeitos que os torna mais inteligentes do que  antes.  E  mais,  nesta  relação  com  o  real  do  mundo  e  o  que resiste ao domínio, eu não descubro somente o mundo tal como ele é, ou seja, não é somente o mundo que se revela a  mim,  novos  registros  de  sensibilidade  também  aparecem  em mim… a força de trabalhar a madeira, a dificuldade de manejar  os  instrumentos,  as  serras,  as  lixas,  por  exemplo,  fazem com que após anos de trabalho meu corpo seja capaz de sentir coisas que ele não sentia antes de ter feito o trabalho. Portanto  a  sensibilidade  aumenta,  novos  registros  de  sensibilidade  que  não  existiam  antes  aparecem,  e  é  graças  a  esta  confrontação  no  trabalho  que  estas  novas  formas de sensibilidade se desenvolvem. É extraordinária a  possiblidade  de  aumentar  os  registros  de  sensibilidade.  Isso é o que chamamos de construção e fortalecimento da subjetividade.  É  o  maior  prazer  que  nós  podemos  ter.  É  também um aumento do poder do corpo de experimentar e  de  se  experimentar.  Portanto  é  também  o  ponto  de  partida de um grande amor de si. O amor por si mesmo é o fundamento da saúde mental. É isso que está em xeque na relação entre subjetividade e trabalho.Nós  poderíamos  dizer  mais  sobre  esta  questão  do  “construção  e  fortalecimento  da  subjetividade”,  do  aumento  da  inteligência  e  do  amor  de  si.  Poderíamos  ir  até  a  ampliação  /  fortalecimento  da  identidade  que  passa  não somente pela relação de si sobre si, mas supõe que o trabalho que eu realizei seja submetido ao olhar do outro, dos colegas, dos superiores hierárquicos, dos subordinados, dos clientes, ou seja, daqueles que vão se beneficiar do meu  trabalho.  Entramos,  neste  momento,  no  registro  do  reconhecimento  pelo  olhar  do  outro,  que  tem  um  grande  poder sobre a construção da identidade e da saúde mental.Se  nos  beneficiamos  dos  diferentes  julgamentos constitutivos   do   reconhecimento   no   trabalho,   podemos   transformar o sofrimento no trabalho em prazer no trabalho. Trata-se do prazer relativo ao fortalecimento da identidade. Não  se  refere,  neste  momento,  apenas  a  construção  da  subjetividade como eu disse até agora… falamos da identidade no  sentido  psicológico  do  termo  (em  contraposição  ao  sentido sociológico do termo). Ou seja, o fato de eu ser capaz de me reconhecer enquanto continuo, mesmo diante de todas as  mudanças  que  faço  ao  longo  da  vida.  Trata-se  de  mim  mesmo constituindo minha própria identidade. Para  a  maioria  das  pessoas  ela,  no  término  da  adolescência,  não  está  concluída,  findada,  estável, completamente  madura.  Houve  impasses  na  construção  desta   identidade   e,   toda   doença   mental,   toda   crise   psicopatológica é centrada em uma crise de identidade. De repente  duvidamos  do  que  somos,  da  continuidade  e  do  reconhecimento de nós mesmos… ou seja, temos dúvidas para afirmar esta identidade… e a maioria de nós precisa do olhar do outro para isso. E o trabalho é uma oportunidade de mobilizar o olhar do outro não sobre mim diretamente, mas sobre a produção do meu trabalho. O  olhar  direto  sobre  mim  vem  do  amor.  É  uma  das  formas de construção da identidade. O olhar sobre o que eu produzo é o reconhecimento. Na verdade, uma modalidade específica de reconhecimento que não é sobre mim, mas sobre o  que  eu  produzo,  ou  seja,  sobre  o  meu  trabalho,  portanto  um  olhar  sobre  o  fazer.  Este  é  um  meio  muito  potente  de  fortalecer a identidade. Entretanto, é necessário repatriar este julgamento  que  se  dirige  para  o  meu  fazer…  repatriá-lo  no  registro do ser, que é uma tarefa específica de cada um: me sentir  mais  inteligente,  mais  amável,  mais  sólido…  é  o  que  chamamos de realização de si no campo social. Agora,   vem   a   questão   do   trabalho,   o   principal   contexto da vida onde podemos exercitar a democracia. Esta é uma questão central do trabalho, mas exige que passemos agora  a  uma  outra  dimensão  do  trabalho,  que  não  é  mais  a  do trabalho individual e subjetivo, mas é o trabalho coletivo e  a  inteligência  no  plural.  Trata-se  de  um  longo  percurso  a  ser  feito  para  compreendermos  o  que  é  a  inteligência  no  plural,  coletiva,  porém,  já  destaco  que  encontramos  nela  o  mesmo hiato que tínhamos no nível individual entre tarefa e atividade, exceto que no nível coletivo temos um hiato entre coordenação e cooperação. Ou seja, se as pessoas respeitassem as ordens dadas pela hierarquia sobre a maneira de trabalhar junto,  a  maneira  de  organizar  o  trabalho  conjunto,  isso  não  funcionaria. As pessoas reinventam coletivamente uma outra maneira  de  trabalhar  que  nós  chamamos  de  cooperação.  A  tarefa  está  para  a  atividade  assim  como  a  coordenação  está  para a cooperação.  A  cooperação,  ela  repousa  sobre  a  capacidade  das  pessoas  de  interpretarem  as  ordens,  a  organização  prescrita…  Porém,  uma  interpretação  compartilhada  pela  equipe. Para chegar a uma interpretação compartilhada e, finalmente, “trapacear” juntos de forma que a organização prescrita se efetive, se torne eficiente, eficaz, são necessárias algumas condições fundamentais. É necessário a abertura de tempo e espaço no interior das organizações do trabalho para  que  os  trabalhadores  possam  confrontar,  discutir,  debater  sobre  a  forma  como  cada  um  desenvolve  seu  trabalho; sobre como cada um interpreta individualmente as prescrições, com vistas a caminhar para a compreensão, para  a  concórdia,  modalidades  de  acordos  e  combinados  entre diferentes membros de uma equipe ou de um coletivo de forma a construir uma interpretação comum das ordens e, então, um modo operatório comum. Isso  demanda  que  as  pessoas  que  compõem  uma  equipe tenham tempo e espaço para discutir… chamamos isso  de  espaço  de  deliberação  no  qual  há  confrontação  sobre os diferentes modos operatórios, sobre as diferentes opiniões  dos  trabalhadores  com  relação  a  maneira  de  interpretar a organização prescrita do trabalho. Este espaço de deliberação é estruturado como um espaço público. Nele, é necessário, não apenas confrontar pontos de vista sobre a eficácia de modos operatórios ou de  diferentes  interpretações  sobre  as  prescrições,  mas  também apresentar os argumentos que não vem apenas da eficácia, mas sim da preferência de cada trabalhador sobre uma certa forma de interpretar. Os mais idosos e os mais jovens não têm o mesmo ponto  de  vista  sobre  a  maneira  de  trabalhar.  Em  função  de  seu  sistema  de  valores,  de  sua  posição  ideológica,  posições  políticas,  não  temos  o  mesmo  ponto  de  vista  sobre  as  estratégias  que  devemos  desenvolver.  Portanto,  os  argumentos  que  devem  ser  trocados  pelas  pessoas,  constituem-se    como    argumentos    mistos:    eles    são    inicialmente técnicos, sobre a eficácia… mas há também uma  segunda  dimensão  que  tem  origem  na  ética  e  na  política… e não na eficácia, mas sobre as noções de bem e mal, justo e injusto, distribuição igualitária, etc.

Mais Conteúdos
Seraphinite AcceleratorOptimized by Seraphinite Accelerator
Turns on site high speed to be attractive for people and search engines.