Entrevista com Christophe Dejours, por Juliana de Oliveira Barros e Selma Lancman
Considerou-se relevante que o artigo de abertura desta edição da Revista de Terapia Ocupacional da USP pudesse trazer contribuições para a discussão sobre a importância do trabalho na construção da saúde dos sujeitos e, consequentemente para as práticas desenvolvidas pelos Terapeutas Ocupacionais na contemporaneidade.Diante disso, em dezembro de 2014(1), realizou-se uma entrevista com Christophe Dejours – Psiquiatra, Médico do Trabalho, Ergonomista, Psicanalista, Professor Titular da Cátedra “Psicanálise, Saúde e Trabalho” do Conservatoire National des Arts et Métiers (CMAN) – Paris, França e membro do laboratório “Psicologia Clínica, Psicopatologia e Psicanálise” da Université Paris Descartes (Paris V) – Paris, França. Atualmente é considerado uma das principais referências internacionais no campo da Saúde Mental e Trabalho.Antes de iniciarmos a entrevista propriamente dita, contextualizamos o Prof. Dejours com relação à origem da Terapia Ocupacional, suas grandes áreas de atuação e as questões que têm nos mobilizado mais recentemente com relação às práticas desenvolvidas na interface com o campo “Saúde e Trabalho”. Realizou-se quatro grandes questões norteadoras ao pesquisador que, livremente, pôde discorrer sobre elas.Para elaboração das questões iniciais, partimos de obras do próprio autor. Em muitas delas, por exemplo, o Prof. Dejours apresenta definições do termo trabalho tendo como base pressupostos da Psicopatologia e da Psicodinâmica do Trabalho, disciplinas em desenvolvimento desde as décadas de 1950 e 1980 respectivamente, das quais ele constitui-se como um dos grandes expoentes. Mais especificamente na obra intitulada “Trabalho Vivo – Tomo II: Trabalho e Emancipação(2)”, o pesquisador afirma que “O trabalho, no que ele tem de essencial, não pertence ao mundo visível”. Pedimos então, que o autor pudesse esclarecer ou melhor, explicar, de forma mais detalhada, qual era sua ideia central em torno desta definição.Ainda nesta obra, o Prof. Dejours afirma que o trabalho seria o principal contexto da vida no qual podemos exercitar a democracia. Defende, igualmente, a tese de que o trabalho impulsiona processos de subjetivação, a realização de si e a construção da saúde. Solicitamos então, que ele pudesse nos explicar quais são, na perspectiva dele, os papeis que o trabalho desempenha na vida das pessoas, bem como sua importância.Em seguida, aproximando a discussão do mundo do trabalho das problemáticas em destaque no contexto brasileiro (tomando como base dados dos anuários estatísticos da Previdência, por exemplo), pontuamos que desde a década de 1990 observamos, além do elevado número de afastamentos por acidentes e doenças osteomusculares, aumento significativo do número de pessoas que adoece mentalmente em decorrência do trabalho. Soma-se a isso o uso progressivo de substâncias psicoativas nos ambientes laborais. Tratam-se não apenas de drogas ilícitas, como o álcool, mas também dos medicamentos psicotrópicos, como ansiolíticos, por exemplo. Questionamos o pesquisador sobre quais eram suas hipóteses explicativas para este fenômeno.Para concluir, o questionamos sobre as possibilidades que os profissionais que atuam especificamente na saúde do trabalhador possuem para fazer frente à questão dos adoecimentos mentais relacionados ao trabalho: estratégias de enfrentamento, possibilidades de retorno e permanência no trabalho desta população e, por fim, a importância/necessidade deste processo mesmo quando o contexto de trabalho não se mostra favorável.A seguir apresentamos texto síntese, produto desta entrevista com o Prof. Christophe Dejours.
*****Christophe Dejours
Quando eu digo que o trabalho não pertence ao mundo visível, trata-se, evidentemente, de uma preocupação em relação à objetivação dele. Isso porque introduziu-se, ao longo dos últimos anos, métodos de avaliação no mundo do trabalho. Tratam-se, mais precisamente, das avaliações objetivas, quantitativas e por medida que colocam o problema do visível e do invisível. Mensura-se apenas aquilo que se pode ver, ou seja, se não é visível, não é possível de ser mensurado. E o trabalho, essencialmente, não pertence ao mundo visível por que, fundamentalmente, o trabalho é subjetivo. Como diz Marx, o trabalho é vivo, individual e subjetivo. A subjetividade não pertence ao mundo visível e, em decorrência disso, não é mensurável. Não medimos sofrimento, prazer, amor, raiva, ódio. Isso não pode ser medido. Podemos caracterizá-los qualitativamente em certas condições; podemos perceber que existe agressividade, que há transformação de amor em ódio, mas a quantidade é uma metáfora.Então, o trabalho é invisível pois ele é essencialmente subjetivo…, mas o que quer dizer o trabalho ser essencialmente subjetivo? Isso é decorrente do fato, como bem mostraram os ergonomistas nestes últimos 50 anos, de que existe sempre um hiato entre o trabalho prescrito – a tarefa, e o trabalho real – o trabalho efetivo. O hiato é irredutível porque o trabalho prescrito ou a organização prescrita do trabalho repousa sobre um postulado de previsibilidade do processo de trabalho, fundado nas ciências da organização do trabalho, nas ciências da engenharia, que reinam sobre o mundo do trabalho desde Taylor, no fim do século XIX.Este postulado repousa sobre a ideia de que podemos prever o desenvolvimento, as etapas do processo de trabalho. A experiência do trabalho sob a luz da ergonomia e mais recentemente da análise clínica do trabalho, mostram que esta previsibilidade é colocada em cheque pela ocorrência de incidentes, de panes, de bugs, de anomalias como por exemplo os acidentes do trabalho… é o que chamamos de real do trabalho. A experiência do real do trabalho se manifesta sob a forma de fracasso do trabalhador… fracasso de seu saber técnico, de sua habilidade, de seus conhecimentos… e se formos ainda mais longe, isso recoloca em questão a ciência, incluindo as ciências da engenharia, pois o processo de trabalho não acontece como o engenheiro previu. O problema que é colocado frente ao real do trabalho reside no fato de que o trabalhador seja capaz de inventar a solução. É necessário que ele encontre a solução por ele mesmo. A inteligência que é mobilizada para preencher o hiato entre o trabalho prescrito e o trabalho efetivo, isso é o mistério do trabalho. Trata-se da inteligência que vai ser estudada mais especificamente pela clínica do trabalho, pela Psicodinâmica do Trabalho e que não é estudada pela Ergonomia… trata-se de algo realmente específico à clínica e a Psicodinâmica do Trabalho.É uma inteligência que se caracteriza pelo fato de passar por uma série de etapas, mas um aspecto fundamental é que ela começa pelo fracasso: trabalhar é fracassar. Em seguida, é ser capaz de suportar o fracasso, de não se render frente a ele, mas de se confrontar com o real que sempre resiste até o momento em que encontramos a solução. Isso pode durar alguns minutos em alguns casos, algumas vezes são muitos dias, outras vezes algumas semanas, muitos meses… eventualmente existem mesmo aquelas situações de trabalho onde são necessários muitos anos para conseguir resolver o problema.Isso é verdade evidentemente para o trabalho do pesquisador, mas também é verdade para muitas profissões, como por exemplo a terapia ocupacional, a psicologia… é preciso muito tempo para encontrar as habilidades, para inventar soluções que vão permitir superar as dificuldades que o doente mental opõe às habilidades do terapeuta, por exemplo. São necessários muitos anos de formação e outros de experiência, mesmo após a formação concluída, para desenvolver as habilidades que vão permitir superar certas dificuldades com as crianças, adolescentes e adultos doentes, por exemplo. É necessário então, ter a capacidade de suportar a experiência de fracasso. A resistência é o problema fundamental. Ela supõe, na realidade, que a subjetividade esteja engajada no trabalho não somente durante o tempo de trabalho, mas também fora dele. Quando, por exemplo, se passa um dia inteiro tentando resolver um problema e não se consegue: com um doente em um serviço de medicina interna, em um serviço de psiquiatria, de gerontologia ou de oncologia infantil etc., e constatamos que os cuidadores não somente pensam no trabalho durante o tempo em que estão nele, mas continuam pensando no problema quando saem do trabalho… e que isso ainda faz parte do trabalho e que pode haver consequências para os familiares e, no final isso pode desencadear insônias… isto faz as pessoas sonharem durante a noite. O que tem nos mostrado a clínica, somada a uma análise mais refinada do ponto de vista teórico em relação ao que acontece nesta resistência no trabalho, é que a subjetividade inteira deve ser habitada pelo trabalho até que se forme uma intimidade com o corpo, uma familiaridade entre o corpo e o real do trabalho. E finalmente, o lugar onde reside a inteligência no trabalho não é como se acreditava, ou seja, no cérebro unicamente. É preciso vivenciar/provar afetivamente a relação com o real e, para isso é necessário um corpo… a inteligência tem seu lugar no corpo por inteiro, seja na condução de uma central nuclear, seja para pilotar um avião de caça, para cuidar de um doente. É necessário aprender a sentir o doente e quando somos professores é necessário aprender a sentir o público, o anfiteatro. É complicado esta relação de intimidade do corpo, mas é ele que experimenta o real e é a partir dele que se inicia, que se coloca em movimento o processo que vai conduzir a descoberta da astucia e o desenvolvimento de estratégias que vão permitir superar o real.Falando em termos mais refinados, é o corpo que intui a solução, aquela que permite superar o real. E esta intuição, esta potência da intuição do corpo é conferida inicialmente pelo estabelecimento da familiarização do corpo com o real. Esta familiarização é subjetiva e em primeiro lugar, fundamentalmente afetiva. E no final a solução chega, ela vem como ideia, quase como uma ideia incidental… Freud diria “Einfall’! Tal ideia, de repente, vai permitir tentar alguma coisa que não se teria sabido fazer até aquele momento. Esta inteligência que reside no corpo está à frente da nossa capacidade de compreendê-la. Isto é complicado… nós somos capazes de desenvolver habilidades no trabalho que nós não temos a capacidade de dar uma explicação exata, seja verbal ou por escrito… nós não seríamos capazes de explicar no que consiste esta habilidade, por exemplo: o que é o tato com um doente? O que é sentir um anfiteatro para um professor, o que isso quer dizer? Mesmo para as pessoas que fazem isto há muito tempo é extremamente complicado compreender a habilidade que elas usam para poder manter este contato com seu público. Elas sabem fazê-lo, mas não sabem explicar como fazem.Esta inteligência está à frente da conceituação, da formalização que nós podemos fazer dela. Tudo o que acontece na subjetividade, as insônias, as mudanças de humor, a irritabilidade, todos os afetos fazem parte do trabalho, os sonhos fazem parte do trabalho. Os sonhos são um tempo particular no qual o que, inicialmente, se coloca entre o corpo e o real, encaminha-se durante a noite e, através do trabalho do sonho, inicia-se a transformação da relação entre o sujeito e seu corpo. É o que chamamos o trabalho do sonho « l’arbeit »! Este trabalho do sonho é uma condição necessária para que possa surgir a intuição e a solução. Então o trabalho do sonho é o tempo do trabalho de si sobre si, que é gerado a partir da relação entre o corpo e o real. E é por isso que ela se configura enquanto sofrimento pois, inicialmente, não funciona. Dispara um segundo trabalho, desta vez na subjetividade e, da relação entre o sujeito e a maneira como habita seu corpo nasce a solução. Tudo isso pertence à subjetividade. Portanto, a genialidade da inteligência no trabalho é inteiramente subjetiva. Por isso ele, o trabalho, pertence ao mundo invisível. E o essencial do trabalho, da inteligência do trabalho, não pertence ao mundo visível e não será nunca mensurável. A partir desta compreensão, defino o trabalho como aquilo que o sujeito deve acrescentar à organização prescrita para poder fazer frente ao que não é previsto pela organização do trabalho, para fazer face ao real.E isso é o trabalho, a passagem pela subjetividade… este longo circuito pelo qual chegamos finalmente a intuição da solução que é, na verdade, um desenvolvimento da inteligência. Caminho que passa pelo corpo, pela inteligência, insônia, sonhos… pela transformação da relação de si consigo mesmo. É isso que nós chamamos de Trabalho Vivo. Então, de forma geral, o trabalho é aquilo que é necessário acrescentar ao prescrito para que o sistema funcione. O Trabalho Vivo é o que isso implica do ponto de vista da inteligência e da mobilização da subjetividade. O Trabalho Vivo é o que é preciso acrescentar, ou seja, o que se deve acrescentar de si para alcançar este resultado: a inteligência e a subjetividade. Finalmente, o aspecto necessário à mobilização desta inteligência é o que nomeamos tecnicamente de zelo. Eis o que é o Trabalho Vivo!E é este Trabalho Vivo que nenhuma organização do trabalho pode dispensar, nenhuma organização do trabalho pode prescindir. Se as pessoas executam as ordens da organização do trabalho isto não funcionará por causa dos incidentes, das disfunções… pelas panes e imprevistos impostos pelo real. Se não há ninguém preparado para o inesperado, então o trabalho é interrompido. Em alguns casos ele para, em outros, explode, como nas centrais nucleares e empresas petroquímicas, por exemplo. Se não há o Trabalho Vivo, o risco é o dos incidentes e até mesmo os acidentes, e ainda as grandes catástrofes industriais como nós vimos em diferentes setores, diferentes situações… Chernobyl por exemplo, a grande catástrofe nuclear, é fundamentalmente resultado de uma desmobilização do Trabalho Vivo.
Então porque que nós dizemos que o trabalho contribui na construção e fortalecimento da subjetividade? É fundamentalmente em decorrência deste processo do Trabalho Vivo que passa pela inteligência. Na realidade, num primeiro momento, trata-se desta relação afetiva e subjetiva com o real, portanto esta familiarização pelo engajamento do corpo na relação com o real. E eu especifico agora que o corpo em questão não é o corpo biológico, é o que chamamos de segundo corpo. Se nós não temos uma teoria do corpo nós não podemos absolutamente compreender como isso funciona. Não é o corpo biológico, os captadores sensoriais ou sensitivos, não somente o cérebro. Trata-se do corpo que experimenta a vida: é o corpo subjetivo que nós opomos ao corpo objetivo. As pessoas que têm um diagnóstico de esquizofrenia, por exemplo, elas têm um corpo objetivo que funciona muito bem, você mede a frequência cardíaca, a pressão arterial, a imunologia, tudo funciona bem, mas o corpo não é habitado pelo esquizofrênico, o corpo subjetivo não funciona bem para algumas pessoas.Portanto, o corpo objetivo, o corpo fisiológico, e o corpo do vivido, o corpo subjetivo, não são os mesmos. O que está no trabalho refere-se ao corpo subjetivo, que não se vê, mas se experimenta de modo afetivo … por meio dele se sofre, mas também em certas condições, se transforma este sofrimento em prazer. Este primeiro momento da relação entre o corpo subjetivo e o real do trabalho é retomado num segundo momento pelo trabalho de si sobre si que integra o trabalho efetivamente realizado. O segundo tempo é uma verdadeira transformação de si sobre si por que, para que venha a solução, para que venha a ideia que vai permitir superar o real é preciso passar por uma transformação da maneira de habitar o próprio corpo. E, portanto, é um processo transformador pelo qual, em razão da existência do real, eu sou incitado, eu sou movido a me transformar. Então trabalhar não é somente produzir é também transformar a si mesmo. E ao final do processo nós somos mais hábeis, formamos uma nova habilidade que não existia antes do trabalho. Ela é uma produção e uma consequência da relação de obstinação e de resistência frente ao real. Deste modo, a habilidade não existe antes do trabalho, a competência não existe antes do trabalho. É o confronto com a impotência, com o fracasso no trabalho que vai me obrigar a me transformar até que eu adquira, até que eu descubra e que se revelem em mim novas habilidades que não existiam antes. Portanto, pela obstinação da relação com o real eu sou, ao final do circuito, mais inteligente e mais hábil em relação ao que eu era até então. Assim sendo, o real do trabalho possibilita uma transformação dos sujeitos que os torna mais inteligentes do que antes. E mais, nesta relação com o real do mundo e o que resiste ao domínio, eu não descubro somente o mundo tal como ele é, ou seja, não é somente o mundo que se revela a mim, novos registros de sensibilidade também aparecem em mim… a força de trabalhar a madeira, a dificuldade de manejar os instrumentos, as serras, as lixas, por exemplo, fazem com que após anos de trabalho meu corpo seja capaz de sentir coisas que ele não sentia antes de ter feito o trabalho. Portanto a sensibilidade aumenta, novos registros de sensibilidade que não existiam antes aparecem, e é graças a esta confrontação no trabalho que estas novas formas de sensibilidade se desenvolvem. É extraordinária a possiblidade de aumentar os registros de sensibilidade. Isso é o que chamamos de construção e fortalecimento da subjetividade. É o maior prazer que nós podemos ter. É também um aumento do poder do corpo de experimentar e de se experimentar. Portanto é também o ponto de partida de um grande amor de si. O amor por si mesmo é o fundamento da saúde mental. É isso que está em xeque na relação entre subjetividade e trabalho.Nós poderíamos dizer mais sobre esta questão do “construção e fortalecimento da subjetividade”, do aumento da inteligência e do amor de si. Poderíamos ir até a ampliação / fortalecimento da identidade que passa não somente pela relação de si sobre si, mas supõe que o trabalho que eu realizei seja submetido ao olhar do outro, dos colegas, dos superiores hierárquicos, dos subordinados, dos clientes, ou seja, daqueles que vão se beneficiar do meu trabalho. Entramos, neste momento, no registro do reconhecimento pelo olhar do outro, que tem um grande poder sobre a construção da identidade e da saúde mental.Se nos beneficiamos dos diferentes julgamentos constitutivos do reconhecimento no trabalho, podemos transformar o sofrimento no trabalho em prazer no trabalho. Trata-se do prazer relativo ao fortalecimento da identidade. Não se refere, neste momento, apenas a construção da subjetividade como eu disse até agora… falamos da identidade no sentido psicológico do termo (em contraposição ao sentido sociológico do termo). Ou seja, o fato de eu ser capaz de me reconhecer enquanto continuo, mesmo diante de todas as mudanças que faço ao longo da vida. Trata-se de mim mesmo constituindo minha própria identidade. Para a maioria das pessoas ela, no término da adolescência, não está concluída, findada, estável, completamente madura. Houve impasses na construção desta identidade e, toda doença mental, toda crise psicopatológica é centrada em uma crise de identidade. De repente duvidamos do que somos, da continuidade e do reconhecimento de nós mesmos… ou seja, temos dúvidas para afirmar esta identidade… e a maioria de nós precisa do olhar do outro para isso. E o trabalho é uma oportunidade de mobilizar o olhar do outro não sobre mim diretamente, mas sobre a produção do meu trabalho. O olhar direto sobre mim vem do amor. É uma das formas de construção da identidade. O olhar sobre o que eu produzo é o reconhecimento. Na verdade, uma modalidade específica de reconhecimento que não é sobre mim, mas sobre o que eu produzo, ou seja, sobre o meu trabalho, portanto um olhar sobre o fazer. Este é um meio muito potente de fortalecer a identidade. Entretanto, é necessário repatriar este julgamento que se dirige para o meu fazer… repatriá-lo no registro do ser, que é uma tarefa específica de cada um: me sentir mais inteligente, mais amável, mais sólido… é o que chamamos de realização de si no campo social. Agora, vem a questão do trabalho, o principal contexto da vida onde podemos exercitar a democracia. Esta é uma questão central do trabalho, mas exige que passemos agora a uma outra dimensão do trabalho, que não é mais a do trabalho individual e subjetivo, mas é o trabalho coletivo e a inteligência no plural. Trata-se de um longo percurso a ser feito para compreendermos o que é a inteligência no plural, coletiva, porém, já destaco que encontramos nela o mesmo hiato que tínhamos no nível individual entre tarefa e atividade, exceto que no nível coletivo temos um hiato entre coordenação e cooperação. Ou seja, se as pessoas respeitassem as ordens dadas pela hierarquia sobre a maneira de trabalhar junto, a maneira de organizar o trabalho conjunto, isso não funcionaria. As pessoas reinventam coletivamente uma outra maneira de trabalhar que nós chamamos de cooperação. A tarefa está para a atividade assim como a coordenação está para a cooperação. A cooperação, ela repousa sobre a capacidade das pessoas de interpretarem as ordens, a organização prescrita… Porém, uma interpretação compartilhada pela equipe. Para chegar a uma interpretação compartilhada e, finalmente, “trapacear” juntos de forma que a organização prescrita se efetive, se torne eficiente, eficaz, são necessárias algumas condições fundamentais. É necessário a abertura de tempo e espaço no interior das organizações do trabalho para que os trabalhadores possam confrontar, discutir, debater sobre a forma como cada um desenvolve seu trabalho; sobre como cada um interpreta individualmente as prescrições, com vistas a caminhar para a compreensão, para a concórdia, modalidades de acordos e combinados entre diferentes membros de uma equipe ou de um coletivo de forma a construir uma interpretação comum das ordens e, então, um modo operatório comum. Isso demanda que as pessoas que compõem uma equipe tenham tempo e espaço para discutir… chamamos isso de espaço de deliberação no qual há confrontação sobre os diferentes modos operatórios, sobre as diferentes opiniões dos trabalhadores com relação a maneira de interpretar a organização prescrita do trabalho. Este espaço de deliberação é estruturado como um espaço público. Nele, é necessário, não apenas confrontar pontos de vista sobre a eficácia de modos operatórios ou de diferentes interpretações sobre as prescrições, mas também apresentar os argumentos que não vem apenas da eficácia, mas sim da preferência de cada trabalhador sobre uma certa forma de interpretar. Os mais idosos e os mais jovens não têm o mesmo ponto de vista sobre a maneira de trabalhar. Em função de seu sistema de valores, de sua posição ideológica, posições políticas, não temos o mesmo ponto de vista sobre as estratégias que devemos desenvolver. Portanto, os argumentos que devem ser trocados pelas pessoas, constituem-se como argumentos mistos: eles são inicialmente técnicos, sobre a eficácia… mas há também uma segunda dimensão que tem origem na ética e na política… e não na eficácia, mas sobre as noções de bem e mal, justo e injusto, distribuição igualitária, etc.
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